Choramingos de velha

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Hoje me dei conta que eu me tornei uma mulher adulta. Não tem mais adolescência, muito menos infância ou qualquer meio termo. Já era, aconteceu. E agora?

Confesso que estou um pouco apavorada. Agora eu entendo perfeitamente os meus pais e quando leio livros ou assisto filmes que relatam os dramas que pessoas “grandinhas” passam, eu consigo me identificar e, quando não, pelo menos me colocar no lugar dos personagens. Os diálogos fazem mais sentido e assistir ao episódio de Friends no qual Rachel faz 30 anos me faz pensar no que eu vou fazer da minha vida até chegar nesta fatídica idade. Se aos 15 eu achava que estaria rica, casada, com filhos e bem resolvida aos 24, agora que estou com 24 como eu espero estar aos 30?

Lembro-me da época em que tudo era claro. Dizem que a adolescência é a fase em que nós ficamos confusos, mas acho que na verdade, quando estamos nessa época da vida, temos certeza de tudo: certeza de que vamos viver pra sempre, que a nossa amiga preferida é e será sempre a melhor pessoa do mundo, que aquela paixonite vai dar em casamento… É quando crescemos que as dúvidas aparecem.

Recentemente passei por uma situação em que a dúvida que me deixou abatida por dias. Não foi qual cor do esmalte colocar, nem em qual escola estudar, muito menos qual curso de graduação fazer, mas sim o que eu quero ser daqui pra frente. Fiquei dividida entre dois polos completamente opostos: seguir meu coração e arriscar tudo para quem sabe um dia me realizar profissionalmente, ou fazer o que parecia ser correto no momento e o que todos queriam que fosse feito? A dúvida durou dois dias, mas pareceu que haviam se passado dois anos, e me pegou de um jeito tão violento, que com certeza não sou mais a mesma pessoa. Eu posso sentir isso.

Independente do que escolhi, o fiz de uma maneira muito mais madura e acreditando que eu sou capaz de fazer algo que irá me trazer bons frutos no futuro. Pela primeira vez, defendi com unhas e dentes o que eu achava que era o certo. Mas o medo está presente todos os dias. A cautela, o receio, o pavor de ter tomado a decisão errada e os questionamentos que isso causa me acompanham desde então. E embora eu ache que sei a resposta, sei que tudo pode mudar a qualquer momento, como aconteceu quando a tal dúvida surgiu. E isso é assustador, para o bem ou para o mal.

Se eu pudesse escolher, teria um pouco mais daquela adolescente destemida que eu era na mulher muito cautelosa que surgiu nem eu sei dizer como. Dizem que é coisa da idade e que o tempo de não se preocupar com muita coisa já passou. Infelizmente, acho que é verdade.  Estou na fase em que me convenço cada vez mais de que nada vem fácil, da preocupação com o futuro e da certeza de que eu terei que lutar todos os dias por uma vida melhor.

Parece um pouco depressivo, mas nem tudo está perdido. Ainda me restam sonhos e mais sonhos. Ainda não conheci a Europa (Londres, eu ainda acredito em nós <3), nem sequer viajei de avião. Mas já passei por desilusões amorosas e aprendi que muitas das pessoas que se dizem minhas amigas não são mais do que simples colegas ou conhecidas. Entendi, finalmente, que convivência amigável não é amizade eterna e que eu preciso parar de me importar com a opinião dos outros e ganhar meu tempo traçando meios para alcançar o fim (ter sucesso, essas coisas).

Foi preciso chorar, cair, ralar o joelho, para entender. Muitos dizem que precisamos agradecer por tais quedas, mas eu ainda estou com o pé atrás com elas, como se a qualquer momento eu fosse despencar, ser enganada, sofrer novamente… Mas eu tento não pensar muito nisso.

E eu achando que quando eu fizesse 18 todos os meus “problemas” estariam resolvidos… Pobre criança. Por essas e outras que eu me pego pensando “ah, se eu pudesse voltar no tempo…” E tem algo mais “coisa de velho” que essa frase? A idade realmente chegou.

Um sonho para sonhar e coragem para realizar

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Anna acordou naquela manhã mais diferente que nunca. Ela podia sentir que até o ar que respirava estava mudado. O que houve? Será que tinha acontecido algo? Do jeito que costumava ser pessimista, pensou logo em algo ruim e o coração apertou. Mas ficou intrigada ao perceber que tudo ao seu redor não havia sofrido mudança alguma. As pessoas continuavam ali – e isso era, definitivamente, uma coisa boa – e ela ainda morava no mesmo lugar. Então chegou a conclusão de que a mudança que percebera tinha acontecido dentro dela e, por isso, ela não sabia dizer se era algo bom ou ruim.

Voltou ao seu quarto e olhou as paredes. Ela mudaria aquelas cores e organizaria os objetos de outro jeito se tivesse a chance. Olhou as suas novas roupas e elas não pareciam mais tão interessantes como no dia em que as comprou. Seus sapatos então, nem se fala… Seria idiota demais pensar que ela havia se tornado, finalmente, uma pessoa adulta? Todos crescem algum dia, mas dá pra perceber quando isso acontecesse? E se aquilo era crescimento, porque era a primeira vez que sentia? Nunca havia amadurecido antes? Ou só dessa vez foi algo realmente significativo?

Anna não podia negar, estava intrigada com aqueles novos sentimentos. Tudo parecia irritantemente igual agora que ela estava diferente. Seus vizinhos eram os mesmos há 15 anos, sem falar que ouviam sempre as mesmas músicas todos os dias. O caminho que fazia para o trabalho era o mesmo desde que entrara na faculdade, seis anos antes. Até ela mesma havia sido insistentemente a mesma durante muito tempo. Percebeu isso ao encontrar fotos antigas, nas quais usava as mesmas cores de roupa que agora, mas não só isso. Ela era a mesma internamente também. Falava do mesmo jeito, ainda adorava as mesmas músicas, tinha as mesmas opiniões formadas sobre os mesmos assuntos e continuava com a mania estúpida de conhecer uma pessoa hoje e já considerá-la sua amiga para o resto da vida.

Começou a chorar. Seria aquilo TPM ou algum tipo de distúrbio hormonal ou mental? O que estava acontecendo? Por um minuto quis voltar a ser a mulher de antes, aquela que estava bem com tudo e todos e só queria seguir com a sua vida em paz. Mas agora aquela vida parecia medíocre demais para ser seguida. Quis encontrar um jeito de mudar rapidamente, ser uma nova pessoa, mas como fazia aquilo?

Foi ao salão de beleza, cortou e pintou os cabelos de preto. Fisicamente ela estava diferente, as pessoas podiam notar isso. “Você está diferente”, “você está mais bonita”, “esse corte valorizou seu rosto”, “você parece mais nova” elas lhe diziam, mas Anna sentia que ainda faltava algo. No dia seguinte, foi ao trabalho com um novo brilho no olhar. Estava ansiosa para se mostrar diferente para os seus colegas e chefes. Os comentários foram os mesmos e teve até mesmo aquelas pessoas que nem repararam. Mas não foi isso que a chateou e sim aquele vazio que ainda sentia.

Ao voltar pra casa, pegou o mesmo ônibus de sempre e, dessa vez, conseguiu se acomodar numa poltrona minimamente confortável. Já estava acostumada com o engarrafamento de todos os dias, mas naquele momento em especial, pareceu insuportável demais.

Anna desceu no meio do caminho e saiu andando sem rumo. Porque as pessoas aceitavam aquela situação? Porque ela também havia aceitado por tanto tempo? Começou a chorar. “Deus, estou mesmo chorando por causa de um engarrafamento?” ela perguntou e, como se estivesse obtendo uma resposta, começou a chover torrencialmente. Anna tentou correr e se proteger em alguma loja, mas desistiu. Continuou a andar, sentindo os pingos grossos a molhar por inteiro.

Ao chegar na rua em que ficava o seu prédio, Anna sentiu algo ainda mais forte: ela odiava aquele lugar, definitivamente. E percebeu que também não gostava daquelas pessoas que a julgavam e falavam dela como se a conhecesse. Odiava ter que passar por ali todos os dias e odiava aquele som alto do seu vizinho, que aparentemente queria mostrar a todos que tinha um eletrônico potente dentro de casa. Odiava não poder fazer nada, nem ao menos jogar uma pedra e fazer aquele aparelho estúpido calar a boca pra sempre.

Entrou no apartamento e começou a chorar mais uma vez. Estava só, então não tinha porque ter vergonha das lágrimas. Decidiu-se que sairia daquele lugar, daquela cidade, daquele país se fosse possível. Ficaria longe das pessoas que não lhe acrescentava nada de bom e esqueceria todas elas. Não sabia se era disso que ela precisava na vida, se era assim que aquele vazio irritante seria finalmente preenchido, mas algo precisava mudar e para melhor. Continuar ali, vivendo do mesmo jeito ao lado das mesmas pessoas não ia lhe ajudar, então ela precisava mudar a si mesma e se mudar, literalmente, o mais rápido que pudesse. Mas Anna sabia que não seria fácil. Se querer fosse poder, ela já estaria longe, mas na vida real ela teria que lutar primeiro.

Ela sabia que não tinha condições financeiras para morar em outro país e até mesmo passar férias fora tornaria o seu orçamento bastante limitado, mas pesquisar por passagens baratas se tornou uma rotina. Avisou aos pais que iria embora e eles não a levaram muito a sério. Anna sempre foi medrosa e não sairia pelo mundo, sozinha, em busca de algo que nem ela sabia o que era. Tinham certeza que não. Mas dessa vez eles estavam enganados. Não conheciam muito bem aquela nova mulher, que tinha uma determinação até então inédita para eles.

Depois que decidiu que iria embora, o trabalho de Anna se tornou um martírio. Ia arrastada, reclamando de tudo e de todos e jurou para si que pediria demissão assim que encontrasse algo melhor. Sim, ela que nunca havia procurado outro emprego, pois se considerava realizada e feliz naquela pequena empresa, começou a se questionar se foi burra demais em aceitá-lo.

Conversou com sua melhor amiga e avisou a ela que estava decidida a ir embora. Achou que ela ia chamá-la de louca, mas para a sua surpresa, o que ganhou foi um “tomara que você consiga” seguido por um abraço apertado. Sentiu-se então com mais força ainda para seguir em frente com aquele plano.

Passaram-se dois anos. Nesse tempo, Anna passou por poucas e boas: perdera amizades que jurava que seriam pra sempre, conheceu novas pessoas e discutiu com algumas delas, emagreceu e manteve seu cabelo mais preto que nunca, conseguiu um novo emprego e um salário melhor, parou de gastar afortunadamente com roupas que não precisava e juntou mês a mês o dinheiro que precisava para viajar por 60 dias pela Europa. E foi.

Sozinha, só com uma mala vermelha e dinheiro para trocar na primeira casa de câmbio que encontrasse, Anna chegou ao aeroporto com um pouco de medo, mas não iria dar pra trás. Deu um beijo em seus pais, um abraço em sua amiga e seguiu seu caminho. Ninguém mais sabia que ela ia para lá. Supersticiosa, achava que se contasse a mais alguém o avião cairia e ela ia morrer sem conhecer o frio europeu.

Ao chegar na Itália, sua primeira parada, foi tomada por um arrependimento absurdo. O que ela estava fazendo sozinha num país que nunca fora antes? Não conhecia ninguém ali e estava tão frio… Arranhou um italiano mal estudado com o taxista e, assim que chegou ao hotel, olhou pela janela do seu quarto a chuva que começava a cair: várias pessoas corriam de um lado para o outro tentando se proteger, outras se arriscavam com guarda-chuvas pequenos demais… não era tão diferente assim, pensou. No final das contas, não importa para onde você vá, as pessoas ainda vão correr da chuva.

Levou apenas dois dias, no entanto, para que a vontade de voltar pra casa passasse. A saudade dos pais já apertava, mas podia falar com eles pelo Skype. As ruas da Itália eram lindas demais para se arrepender de qualquer coisa ali. Conheceu uma jovem de sua idade e alguns de seus amigos durante um passeio turístico. Contou a eles que nem sabia de onde tinha tirado coragem para estar ali, sozinha, e a partir daquele momento, não estava mais só.

Anna fez novos amigos por onde passou e, dessa vez, não jurou que seria pra sempre. Apenas aproveitou o momento e se deixou levar conscientemente em busca da sua realização pessoal. Conheceu Paris, Roma, Espanha, Alemanha, Londres… se fixou por mais tempo em uma pequena cidade na Irlanda e decidiu que ali era bom demais para deixar pra trás. E por lá ficou.

Dizem que ela voltou ao Brasil apenas para regularizar as coisas e foi pra Irlanda definitivamente apenas dois meses depois. Dizem também que seus pais a visitam de seis em seis meses e, vez ou outra, sua amiga vai junto. Dizem que Anna conheceu um rapaz irlandês e que está noiva dele há três semanas. E o mais importante, está feliz como jamais esteve. O seu vizinho, aquele do som irritantemente alto, não notou que ela foi embora e nem se lembraria dela de forma alguma. Ela também não se lembrava de mais nada que lhe atrasava. Estava feliz demais para viver no passado. A súbita coragem de Anna salvou a sua vida.

Nem tanto, nem tão pouco

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Convencida de que acabara de conhecer um dos seus melhores amigos, Celly estava encantada. Quem disse que alguém não pode fazer novas amizades depois que a euforia da adolescência se vai?

Ele era alto, tímido, mas muito divertido. Os dias com ele eram maravilhosos, as horas passavam rápidas e o riso era algo certo e contagiante. O simples fato de ir ao cinema ganhara um novo significado. Trabalhar juntos era tão prazeroso que não parecia nem mesmo uma obrigação. As ligações intermináveis nas quais conversavam de tudo por horas a fio ajudavam a dissolver qualquer problema que existisse. Ele era uma parte muito especial dela e pra sempre seria assim.

Para ele, Celly era a novidade: diferente de todas as garotas que já havia conhecido, divertida embora muito emotiva, dramática de um jeito adorável e muito engraçado, sonhadora… Tudo o que ele jamais percebera numa mulher, em Celly se tornava qualidade. Faria tudo por ela, até mesmo coisas que mais odiava, pois o mais importante era estar ao seu lado.

Até que tudo se complicou.

Um dia, Celly o pegou olhando pra ela de um modo diferente ao que estava acostumada. Sem saber mais o que mantinha os dois tão próximos, ela se questionou o que estava acontecendo. Havia um brilho diferente. Um ar diferente. Toda vez que ela se virava para ele, percebia que o seu olhar descia para a altura dos seus lábios, de um modo tão constrangedor e ao mesmo tempo atrativo, que ela se perguntava se estava, sem perceber, correspondendo aquilo.

Ele no fundo sabia que, depois do sonho que tivera, no qual estavam apaixonados, nada mais seria igual. Fora tão intenso que ele não conseguiria ignorar. Ao vê-la no dia seguinte, algo já havia mudado. Ela estava mais bonita? Sua boca estava tão chamativa que ele não conseguia parar de fantasiar com ela. O desejo de segurar a sua mão se tornou insuportável. E porque o seu coração acelerou quando ela se aproximou dele? “Apenas pare de ser idiota” ele pedia a si mesmo, sabendo que estava entrando num terreno sem saída.

As pessoas começaram a notar. “Vocês são namorados?” perguntavam, e ambos riam sem graça sem saber o que fazer. A resposta era óbvia para os dois, claro que não eram nada além de amigos, mas porque tanta gente, ao mesmo tempo, fazia aquela pergunta? Porque que até mesmo os mais próximos, que os conhecia e sabia que ali só havia amizade, começavam a questionar, quando um ou outro estavam sozinhos, se havia chances de acontecer “algo mais”?

Celly não sabia explicar o que começou tudo isso, mas o seu coração e, principalmente, a sua cabeça, começaram a dar um nó. Será que ele gostava dela de um jeito mais íntimo e amoroso? E será que ela correspondia? Ela passou a acreditar que sim, apesar de negar verbalmente sempre que alguém lhe perguntava. Com o tempo, sonhar com ele se tornou uma rotina. Sonhos românticos, eróticos, com beijos ardentes e extremamente deliciosos de um jeito que ela nunca teve na vida. Será que aquilo era possível?

Nas histórias românticas que se encontra em livros, certamente Celly largaria tudo para ficar com esse possível grande amor, mas a realidade pesa de outras formas e ela não quis arriscar. Eles eram muito amigos, era tudo tão incerto e confuso… e se isso estragasse tudo? E se não valesse a pena? E se fosse apenas “fogo de palha”? Ou desejo, algo mais carnal do que romântico? E se não fosse amor, mas sim paixão? Parecia muito com a paixão: aquele fogo, a vontade de estar perto, de beijar até perder a respiração… E se fosse apenas a vontade de ser amada e estar apaixonada por alguém?

Seguiram em frente. Ele continuou dando seus sinais e vez ou outra ela o pegava olhando pra ela de uma maneira séria, mas ao mesmo tempo intensa. Ela lutava pra não perceber nada (ou fingir que assim era) por puro medo. Então tomou uma decisão: se ele falasse sobre o assunto, ela teria certeza do que ele sentia e assim poderia acabar com essa confusão. Mas ele nunca o fez e tudo piorou. Ele ficou aparentemente chateado com a falta de tato dela, dando indiretas que a machucavam e a confundiam ainda mais. Ela também dava os seus “empurrões”, mas ele se fechava e não respondia do jeito que ela esperava.

Obviamente, nenhum dos dois, apesar de serem grandes amigos, sabia lidar um com o outro quando o assunto era o romance que tentava se iniciar. Ela por medo de perdê-lo de vez, e ele por medo de ser rejeitado. Eram como dois cegos tentando acertar o alvo. Uma hora alguém ia se machucar.

Ninguém sabe explicar racionalmente o que aconteceu, mas ele se tornou um estranho para ela. Como se quisesse afastá-la da sua vida, começou a andar com novas pessoas e a ignorá-la sempre que possível. Como uma mente fraca pronta para ser habitada por um parasita, ele foi da água para o vinho ao fazer tudo o que sempre criticara para agradar seus novos amigos. Passou a só falar com ela cercado por ironias, como se a culpasse por tudo e quisesse mostrá-la o que perdeu. Agora, ele só é carinhoso com ela quando lhe convém.

O que Celly não sabia era que ele realmente se apaixonou por ela. E tentou, do jeito dele, fazer isso funcionar. Ela não se lembrava do dia em que quase a beijou? Ou dos abraços apertados que lhe dava, cheios de significado? Talvez ela nem imaginasse isso, mas ele também tinha medo que não desse certo. E provavelmente não daria, já que algo que devia ser prazeroso se tornara tão difícil de suportar. Ela fugia dele, fingia que não via os seus sinais. Ele não sabia como interpretar aquilo, já que uma hora ela retribuía os seus olhares mais intensos, e em outras corria e se afastava.

Então veio a raiva. Dos dois. Ele jurou esquecê-la e fez isso de uma maneira dolorosa pra ela. Se afastou, procurou novas pessoas, a ignorou. Celly sofreu por muito tempo e várias perguntas atordoavam a sua mente: a culpa seria mesmo dela? Foi ela quem procurou isso? Ou ele que era uma pessoa infantil que não sabia lidar com as confusões de uma vida adulta? Onde foi parar o seu grande amigo, o companheiro que parecia ser sua alma gêmea? Porque ele tinha tanta raiva dela ao ponto de culpá-la por algo que ela não podia resolver sem ele? Que espécie de lavagem cerebral era aquela?

As lágrimas caíram por muito tempo. Celly tentou se reaproximar tanto quanto pôde, mas diante de tanta ignorância da parte dele, acabou desistindo. Quando se encontravam nas ruas da cidade, ficavam sem graça e não sabiam o que falar um com o outro. Seria melhor passar despercebido, fingindo que não se viram e evitar um constrangimento maior. Celly admitia que a sua maior vontade era socá-lo no rosto e fazê-lo voltar a ser o que era antes, mesmo que não voltasse pra ela. Só queria vê-lo bem, sendo o que ele é, e não o que se forçou a ser.

Embora não conte a ninguém, ela andou sonhando com ele na semana passada. De novo, aqueles beijos ardentes e atordoantes. Do outro lado do bairro, ele também sonhara com ela e, por conta disso, ao passar por uma loja qualquer no dia seguinte, comprou-lhe um presente. Ele não sabia explicar o porquê, mas lembrara dela e quis ter de volta, por uma fração de segundos, aquela amizade de antes. Mas ele provavelmente não irá lhe entregar o pequeno objeto, pois não sabe como fazer isso depois de tudo.

Será que havia uma lição nisso? Celly achava que sim. Talvez, se ela tivesse ignorado seus medos e ficasse com ele, amorosamente falando, fosse bem pior. Se já sofrera daquele jeito por ter perdido sua amizade, imagina o que aconteceria quando perdesse o seu amor? Hoje Celly acredita que foi melhor assim e deixou tudo isso pra trás. Mas ela nunca o esqueceu e o simples fato de ver a sua foto faz seu coração apertar de dor. E foi por isso que ela apagou todas.

Ele seguia fingindo que aquilo nunca existiu, correndo atrás dela quando precisava de algo e a ignorando assim que conseguia. Mas viu com surpresa o fato de ela rejeitar a sua ligação e não responder a sua mensagem de texto. E porque ela o ignorou daquele jeito ao vê-lo na rua? A dor da rejeição ressurgiu em seu peito. Ele queria se afastar dela, parar de sentir aquela coisa estranha e dolorosa chamada paixão, mas então, quando ela cansou do jogo e se afastou dele, o que ele sentiu foi bem pior.

Eles perderam um ao outro e só assim conseguiram entender o quanto dificultaram as coisas. Talvez não fosse mesmo amor, mas também não era pra ser só amizade. Por isso que acabou.

A liberdade para amar (ou não) uma pessoa

Claro garota, você vai sorrir no primeiro momento. Depois, o que é que tem ele dizer que você é linda, de um jeito tímido e extremamente fofo? É claro que ele pegar na sua mão e dar um beijinho sempre que estão sozinhos não significa nada também, nem o fato de ele lhe mandar músicas românticas só pra te alegrar. Ele te abraçar apertado e lhe dar um beijo no canto da boca não tem nada de errado, certo?

Você não consegue parar de pensar nele, nem de fantasiar com tudo o que vocês viveriam caso estivessem juntos, caso seu coração não tivesse sido roubado pelo seu namorado. Lembra? Você tem um. E caso o seu relacionamento não seja aberto, sugiro que pare e pense no que anda fazendo.

O amigo, aquele que chegou de mansinho e está tentando roubar seu coração, faz você tremer só de estar perto. O cheiro, o toque, os olhares… ah os olhares! Se eles pudessem falar, você não teria mais como mentir. Está encantada por outro, garota, mas e o seu namorado? Você o ama? Sim, você o ama, ama a ponto de fazer tudo por ele. Ama ao ponto de não querer magoá-lo nunca e de contar os minutos para estar perto dele novamente. Então o que está acontecendo? Porque você se pega pensando naquele amigo carinhoso? Porque sonha com ele te beijando na boca e te chamando de “minha garota”?

Você gosta de ser amada garota. E quem não gosta? Como não gostar de alguém que está ali, te bajulando, te dizendo mesmo sem palavras que tudo o que deseja é ser seu? Mas você não pode. Não pode e não quer, pois você ama outro. Mas então porque ele mexe tanto com você? Porque ele te irrita tanto quando sai com outra garota? Porque você jura odiá-lo para, no dia seguinte, voltar a chama-lo de querido?

Não garota, você não está apaixonada por ele. Você está apaixonada pela ideia de alguém, além do seu namorado, estar apaixonado por você. Você gosta da paixão, simples assim.

Talvez o que você queira seja um novo primeiro beijo, um novo abraço, um novo cheiro… mas você não quer amá-lo, você só quer sentí-lo, ver como é, sabe? Mas se é assim, esqueça-o garota. Você só irá trazer dor pra si mesma, pra ele e para o seu amor. Você não o quer de verdade, se assim fosse, você estaria com ele agora. Você ama o seu namorado, e se ele te ama, é assim que tem que ser.

Esqueça os sonhos garota, os contos de fadas da vida real nem sempre têm finais felizes. Viva a sua vida com o seu namorado. Os sonhos, esses irão parar. Pode ter certeza. Eles não são reais, se fossem, não apareceriam somente enquanto dorme. Viva garota, e cuidado com o que diz amar… muito cuidado. Triângulos amorosos só são legais em livros e filmes, e às vezes nem assim. Na vida real, tudo é mais difícil. Não queira se iludir e piorar as coisas.

Cuidado, garota. Abra o olho. Isso não é um sonho e as pessoas não existem para ser usadas. Ame-as, mas deixa-as livres quando não puder fazer isso. Deixe-o amar outra pessoa, já que você não pode fazer isso por ele. Deixe-o ser feliz. Você vai ser também… Acredite!