Nem tanto, nem tão pouco

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Convencida de que acabara de conhecer um dos seus melhores amigos, Celly estava encantada. Quem disse que alguém não pode fazer novas amizades depois que a euforia da adolescência se vai?

Ele era alto, tímido, mas muito divertido. Os dias com ele eram maravilhosos, as horas passavam rápidas e o riso era algo certo e contagiante. O simples fato de ir ao cinema ganhara um novo significado. Trabalhar juntos era tão prazeroso que não parecia nem mesmo uma obrigação. As ligações intermináveis nas quais conversavam de tudo por horas a fio ajudavam a dissolver qualquer problema que existisse. Ele era uma parte muito especial dela e pra sempre seria assim.

Para ele, Celly era a novidade: diferente de todas as garotas que já havia conhecido, divertida embora muito emotiva, dramática de um jeito adorável e muito engraçado, sonhadora… Tudo o que ele jamais percebera numa mulher, em Celly se tornava qualidade. Faria tudo por ela, até mesmo coisas que mais odiava, pois o mais importante era estar ao seu lado.

Até que tudo se complicou.

Um dia, Celly o pegou olhando pra ela de um modo diferente ao que estava acostumada. Sem saber mais o que mantinha os dois tão próximos, ela se questionou o que estava acontecendo. Havia um brilho diferente. Um ar diferente. Toda vez que ela se virava para ele, percebia que o seu olhar descia para a altura dos seus lábios, de um modo tão constrangedor e ao mesmo tempo atrativo, que ela se perguntava se estava, sem perceber, correspondendo aquilo.

Ele no fundo sabia que, depois do sonho que tivera, no qual estavam apaixonados, nada mais seria igual. Fora tão intenso que ele não conseguiria ignorar. Ao vê-la no dia seguinte, algo já havia mudado. Ela estava mais bonita? Sua boca estava tão chamativa que ele não conseguia parar de fantasiar com ela. O desejo de segurar a sua mão se tornou insuportável. E porque o seu coração acelerou quando ela se aproximou dele? “Apenas pare de ser idiota” ele pedia a si mesmo, sabendo que estava entrando num terreno sem saída.

As pessoas começaram a notar. “Vocês são namorados?” perguntavam, e ambos riam sem graça sem saber o que fazer. A resposta era óbvia para os dois, claro que não eram nada além de amigos, mas porque tanta gente, ao mesmo tempo, fazia aquela pergunta? Porque que até mesmo os mais próximos, que os conhecia e sabia que ali só havia amizade, começavam a questionar, quando um ou outro estavam sozinhos, se havia chances de acontecer “algo mais”?

Celly não sabia explicar o que começou tudo isso, mas o seu coração e, principalmente, a sua cabeça, começaram a dar um nó. Será que ele gostava dela de um jeito mais íntimo e amoroso? E será que ela correspondia? Ela passou a acreditar que sim, apesar de negar verbalmente sempre que alguém lhe perguntava. Com o tempo, sonhar com ele se tornou uma rotina. Sonhos românticos, eróticos, com beijos ardentes e extremamente deliciosos de um jeito que ela nunca teve na vida. Será que aquilo era possível?

Nas histórias românticas que se encontra em livros, certamente Celly largaria tudo para ficar com esse possível grande amor, mas a realidade pesa de outras formas e ela não quis arriscar. Eles eram muito amigos, era tudo tão incerto e confuso… e se isso estragasse tudo? E se não valesse a pena? E se fosse apenas “fogo de palha”? Ou desejo, algo mais carnal do que romântico? E se não fosse amor, mas sim paixão? Parecia muito com a paixão: aquele fogo, a vontade de estar perto, de beijar até perder a respiração… E se fosse apenas a vontade de ser amada e estar apaixonada por alguém?

Seguiram em frente. Ele continuou dando seus sinais e vez ou outra ela o pegava olhando pra ela de uma maneira séria, mas ao mesmo tempo intensa. Ela lutava pra não perceber nada (ou fingir que assim era) por puro medo. Então tomou uma decisão: se ele falasse sobre o assunto, ela teria certeza do que ele sentia e assim poderia acabar com essa confusão. Mas ele nunca o fez e tudo piorou. Ele ficou aparentemente chateado com a falta de tato dela, dando indiretas que a machucavam e a confundiam ainda mais. Ela também dava os seus “empurrões”, mas ele se fechava e não respondia do jeito que ela esperava.

Obviamente, nenhum dos dois, apesar de serem grandes amigos, sabia lidar um com o outro quando o assunto era o romance que tentava se iniciar. Ela por medo de perdê-lo de vez, e ele por medo de ser rejeitado. Eram como dois cegos tentando acertar o alvo. Uma hora alguém ia se machucar.

Ninguém sabe explicar racionalmente o que aconteceu, mas ele se tornou um estranho para ela. Como se quisesse afastá-la da sua vida, começou a andar com novas pessoas e a ignorá-la sempre que possível. Como uma mente fraca pronta para ser habitada por um parasita, ele foi da água para o vinho ao fazer tudo o que sempre criticara para agradar seus novos amigos. Passou a só falar com ela cercado por ironias, como se a culpasse por tudo e quisesse mostrá-la o que perdeu. Agora, ele só é carinhoso com ela quando lhe convém.

O que Celly não sabia era que ele realmente se apaixonou por ela. E tentou, do jeito dele, fazer isso funcionar. Ela não se lembrava do dia em que quase a beijou? Ou dos abraços apertados que lhe dava, cheios de significado? Talvez ela nem imaginasse isso, mas ele também tinha medo que não desse certo. E provavelmente não daria, já que algo que devia ser prazeroso se tornara tão difícil de suportar. Ela fugia dele, fingia que não via os seus sinais. Ele não sabia como interpretar aquilo, já que uma hora ela retribuía os seus olhares mais intensos, e em outras corria e se afastava.

Então veio a raiva. Dos dois. Ele jurou esquecê-la e fez isso de uma maneira dolorosa pra ela. Se afastou, procurou novas pessoas, a ignorou. Celly sofreu por muito tempo e várias perguntas atordoavam a sua mente: a culpa seria mesmo dela? Foi ela quem procurou isso? Ou ele que era uma pessoa infantil que não sabia lidar com as confusões de uma vida adulta? Onde foi parar o seu grande amigo, o companheiro que parecia ser sua alma gêmea? Porque ele tinha tanta raiva dela ao ponto de culpá-la por algo que ela não podia resolver sem ele? Que espécie de lavagem cerebral era aquela?

As lágrimas caíram por muito tempo. Celly tentou se reaproximar tanto quanto pôde, mas diante de tanta ignorância da parte dele, acabou desistindo. Quando se encontravam nas ruas da cidade, ficavam sem graça e não sabiam o que falar um com o outro. Seria melhor passar despercebido, fingindo que não se viram e evitar um constrangimento maior. Celly admitia que a sua maior vontade era socá-lo no rosto e fazê-lo voltar a ser o que era antes, mesmo que não voltasse pra ela. Só queria vê-lo bem, sendo o que ele é, e não o que se forçou a ser.

Embora não conte a ninguém, ela andou sonhando com ele na semana passada. De novo, aqueles beijos ardentes e atordoantes. Do outro lado do bairro, ele também sonhara com ela e, por conta disso, ao passar por uma loja qualquer no dia seguinte, comprou-lhe um presente. Ele não sabia explicar o porquê, mas lembrara dela e quis ter de volta, por uma fração de segundos, aquela amizade de antes. Mas ele provavelmente não irá lhe entregar o pequeno objeto, pois não sabe como fazer isso depois de tudo.

Será que havia uma lição nisso? Celly achava que sim. Talvez, se ela tivesse ignorado seus medos e ficasse com ele, amorosamente falando, fosse bem pior. Se já sofrera daquele jeito por ter perdido sua amizade, imagina o que aconteceria quando perdesse o seu amor? Hoje Celly acredita que foi melhor assim e deixou tudo isso pra trás. Mas ela nunca o esqueceu e o simples fato de ver a sua foto faz seu coração apertar de dor. E foi por isso que ela apagou todas.

Ele seguia fingindo que aquilo nunca existiu, correndo atrás dela quando precisava de algo e a ignorando assim que conseguia. Mas viu com surpresa o fato de ela rejeitar a sua ligação e não responder a sua mensagem de texto. E porque ela o ignorou daquele jeito ao vê-lo na rua? A dor da rejeição ressurgiu em seu peito. Ele queria se afastar dela, parar de sentir aquela coisa estranha e dolorosa chamada paixão, mas então, quando ela cansou do jogo e se afastou dele, o que ele sentiu foi bem pior.

Eles perderam um ao outro e só assim conseguiram entender o quanto dificultaram as coisas. Talvez não fosse mesmo amor, mas também não era pra ser só amizade. Por isso que acabou.

A liberdade para amar (ou não) uma pessoa

Claro garota, você vai sorrir no primeiro momento. Depois, o que é que tem ele dizer que você é linda, de um jeito tímido e extremamente fofo? É claro que ele pegar na sua mão e dar um beijinho sempre que estão sozinhos não significa nada também, nem o fato de ele lhe mandar músicas românticas só pra te alegrar. Ele te abraçar apertado e lhe dar um beijo no canto da boca não tem nada de errado, certo?

Você não consegue parar de pensar nele, nem de fantasiar com tudo o que vocês viveriam caso estivessem juntos, caso seu coração não tivesse sido roubado pelo seu namorado. Lembra? Você tem um. E caso o seu relacionamento não seja aberto, sugiro que pare e pense no que anda fazendo.

O amigo, aquele que chegou de mansinho e está tentando roubar seu coração, faz você tremer só de estar perto. O cheiro, o toque, os olhares… ah os olhares! Se eles pudessem falar, você não teria mais como mentir. Está encantada por outro, garota, mas e o seu namorado? Você o ama? Sim, você o ama, ama a ponto de fazer tudo por ele. Ama ao ponto de não querer magoá-lo nunca e de contar os minutos para estar perto dele novamente. Então o que está acontecendo? Porque você se pega pensando naquele amigo carinhoso? Porque sonha com ele te beijando na boca e te chamando de “minha garota”?

Você gosta de ser amada garota. E quem não gosta? Como não gostar de alguém que está ali, te bajulando, te dizendo mesmo sem palavras que tudo o que deseja é ser seu? Mas você não pode. Não pode e não quer, pois você ama outro. Mas então porque ele mexe tanto com você? Porque ele te irrita tanto quando sai com outra garota? Porque você jura odiá-lo para, no dia seguinte, voltar a chama-lo de querido?

Não garota, você não está apaixonada por ele. Você está apaixonada pela ideia de alguém, além do seu namorado, estar apaixonado por você. Você gosta da paixão, simples assim.

Talvez o que você queira seja um novo primeiro beijo, um novo abraço, um novo cheiro… mas você não quer amá-lo, você só quer sentí-lo, ver como é, sabe? Mas se é assim, esqueça-o garota. Você só irá trazer dor pra si mesma, pra ele e para o seu amor. Você não o quer de verdade, se assim fosse, você estaria com ele agora. Você ama o seu namorado, e se ele te ama, é assim que tem que ser.

Esqueça os sonhos garota, os contos de fadas da vida real nem sempre têm finais felizes. Viva a sua vida com o seu namorado. Os sonhos, esses irão parar. Pode ter certeza. Eles não são reais, se fossem, não apareceriam somente enquanto dorme. Viva garota, e cuidado com o que diz amar… muito cuidado. Triângulos amorosos só são legais em livros e filmes, e às vezes nem assim. Na vida real, tudo é mais difícil. Não queira se iludir e piorar as coisas.

Cuidado, garota. Abra o olho. Isso não é um sonho e as pessoas não existem para ser usadas. Ame-as, mas deixa-as livres quando não puder fazer isso. Deixe-o amar outra pessoa, já que você não pode fazer isso por ele. Deixe-o ser feliz. Você vai ser também… Acredite!