Um sonho para sonhar e coragem para realizar

dream

Anna acordou naquela manhã mais diferente que nunca. Ela podia sentir que até o ar que respirava estava mudado. O que houve? Será que tinha acontecido algo? Do jeito que costumava ser pessimista, pensou logo em algo ruim e o coração apertou. Mas ficou intrigada ao perceber que tudo ao seu redor não havia sofrido mudança alguma. As pessoas continuavam ali – e isso era, definitivamente, uma coisa boa – e ela ainda morava no mesmo lugar. Então chegou a conclusão de que a mudança que percebera tinha acontecido dentro dela e, por isso, ela não sabia dizer se era algo bom ou ruim.

Voltou ao seu quarto e olhou as paredes. Ela mudaria aquelas cores e organizaria os objetos de outro jeito se tivesse a chance. Olhou as suas novas roupas e elas não pareciam mais tão interessantes como no dia em que as comprou. Seus sapatos então, nem se fala… Seria idiota demais pensar que ela havia se tornado, finalmente, uma pessoa adulta? Todos crescem algum dia, mas dá pra perceber quando isso acontecesse? E se aquilo era crescimento, porque era a primeira vez que sentia? Nunca havia amadurecido antes? Ou só dessa vez foi algo realmente significativo?

Anna não podia negar, estava intrigada com aqueles novos sentimentos. Tudo parecia irritantemente igual agora que ela estava diferente. Seus vizinhos eram os mesmos há 15 anos, sem falar que ouviam sempre as mesmas músicas todos os dias. O caminho que fazia para o trabalho era o mesmo desde que entrara na faculdade, seis anos antes. Até ela mesma havia sido insistentemente a mesma durante muito tempo. Percebeu isso ao encontrar fotos antigas, nas quais usava as mesmas cores de roupa que agora, mas não só isso. Ela era a mesma internamente também. Falava do mesmo jeito, ainda adorava as mesmas músicas, tinha as mesmas opiniões formadas sobre os mesmos assuntos e continuava com a mania estúpida de conhecer uma pessoa hoje e já considerá-la sua amiga para o resto da vida.

Começou a chorar. Seria aquilo TPM ou algum tipo de distúrbio hormonal ou mental? O que estava acontecendo? Por um minuto quis voltar a ser a mulher de antes, aquela que estava bem com tudo e todos e só queria seguir com a sua vida em paz. Mas agora aquela vida parecia medíocre demais para ser seguida. Quis encontrar um jeito de mudar rapidamente, ser uma nova pessoa, mas como fazia aquilo?

Foi ao salão de beleza, cortou e pintou os cabelos de preto. Fisicamente ela estava diferente, as pessoas podiam notar isso. “Você está diferente”, “você está mais bonita”, “esse corte valorizou seu rosto”, “você parece mais nova” elas lhe diziam, mas Anna sentia que ainda faltava algo. No dia seguinte, foi ao trabalho com um novo brilho no olhar. Estava ansiosa para se mostrar diferente para os seus colegas e chefes. Os comentários foram os mesmos e teve até mesmo aquelas pessoas que nem repararam. Mas não foi isso que a chateou e sim aquele vazio que ainda sentia.

Ao voltar pra casa, pegou o mesmo ônibus de sempre e, dessa vez, conseguiu se acomodar numa poltrona minimamente confortável. Já estava acostumada com o engarrafamento de todos os dias, mas naquele momento em especial, pareceu insuportável demais.

Anna desceu no meio do caminho e saiu andando sem rumo. Porque as pessoas aceitavam aquela situação? Porque ela também havia aceitado por tanto tempo? Começou a chorar. “Deus, estou mesmo chorando por causa de um engarrafamento?” ela perguntou e, como se estivesse obtendo uma resposta, começou a chover torrencialmente. Anna tentou correr e se proteger em alguma loja, mas desistiu. Continuou a andar, sentindo os pingos grossos a molhar por inteiro.

Ao chegar na rua em que ficava o seu prédio, Anna sentiu algo ainda mais forte: ela odiava aquele lugar, definitivamente. E percebeu que também não gostava daquelas pessoas que a julgavam e falavam dela como se a conhecesse. Odiava ter que passar por ali todos os dias e odiava aquele som alto do seu vizinho, que aparentemente queria mostrar a todos que tinha um eletrônico potente dentro de casa. Odiava não poder fazer nada, nem ao menos jogar uma pedra e fazer aquele aparelho estúpido calar a boca pra sempre.

Entrou no apartamento e começou a chorar mais uma vez. Estava só, então não tinha porque ter vergonha das lágrimas. Decidiu-se que sairia daquele lugar, daquela cidade, daquele país se fosse possível. Ficaria longe das pessoas que não lhe acrescentava nada de bom e esqueceria todas elas. Não sabia se era disso que ela precisava na vida, se era assim que aquele vazio irritante seria finalmente preenchido, mas algo precisava mudar e para melhor. Continuar ali, vivendo do mesmo jeito ao lado das mesmas pessoas não ia lhe ajudar, então ela precisava mudar a si mesma e se mudar, literalmente, o mais rápido que pudesse. Mas Anna sabia que não seria fácil. Se querer fosse poder, ela já estaria longe, mas na vida real ela teria que lutar primeiro.

Ela sabia que não tinha condições financeiras para morar em outro país e até mesmo passar férias fora tornaria o seu orçamento bastante limitado, mas pesquisar por passagens baratas se tornou uma rotina. Avisou aos pais que iria embora e eles não a levaram muito a sério. Anna sempre foi medrosa e não sairia pelo mundo, sozinha, em busca de algo que nem ela sabia o que era. Tinham certeza que não. Mas dessa vez eles estavam enganados. Não conheciam muito bem aquela nova mulher, que tinha uma determinação até então inédita para eles.

Depois que decidiu que iria embora, o trabalho de Anna se tornou um martírio. Ia arrastada, reclamando de tudo e de todos e jurou para si que pediria demissão assim que encontrasse algo melhor. Sim, ela que nunca havia procurado outro emprego, pois se considerava realizada e feliz naquela pequena empresa, começou a se questionar se foi burra demais em aceitá-lo.

Conversou com sua melhor amiga e avisou a ela que estava decidida a ir embora. Achou que ela ia chamá-la de louca, mas para a sua surpresa, o que ganhou foi um “tomara que você consiga” seguido por um abraço apertado. Sentiu-se então com mais força ainda para seguir em frente com aquele plano.

Passaram-se dois anos. Nesse tempo, Anna passou por poucas e boas: perdera amizades que jurava que seriam pra sempre, conheceu novas pessoas e discutiu com algumas delas, emagreceu e manteve seu cabelo mais preto que nunca, conseguiu um novo emprego e um salário melhor, parou de gastar afortunadamente com roupas que não precisava e juntou mês a mês o dinheiro que precisava para viajar por 60 dias pela Europa. E foi.

Sozinha, só com uma mala vermelha e dinheiro para trocar na primeira casa de câmbio que encontrasse, Anna chegou ao aeroporto com um pouco de medo, mas não iria dar pra trás. Deu um beijo em seus pais, um abraço em sua amiga e seguiu seu caminho. Ninguém mais sabia que ela ia para lá. Supersticiosa, achava que se contasse a mais alguém o avião cairia e ela ia morrer sem conhecer o frio europeu.

Ao chegar na Itália, sua primeira parada, foi tomada por um arrependimento absurdo. O que ela estava fazendo sozinha num país que nunca fora antes? Não conhecia ninguém ali e estava tão frio… Arranhou um italiano mal estudado com o taxista e, assim que chegou ao hotel, olhou pela janela do seu quarto a chuva que começava a cair: várias pessoas corriam de um lado para o outro tentando se proteger, outras se arriscavam com guarda-chuvas pequenos demais… não era tão diferente assim, pensou. No final das contas, não importa para onde você vá, as pessoas ainda vão correr da chuva.

Levou apenas dois dias, no entanto, para que a vontade de voltar pra casa passasse. A saudade dos pais já apertava, mas podia falar com eles pelo Skype. As ruas da Itália eram lindas demais para se arrepender de qualquer coisa ali. Conheceu uma jovem de sua idade e alguns de seus amigos durante um passeio turístico. Contou a eles que nem sabia de onde tinha tirado coragem para estar ali, sozinha, e a partir daquele momento, não estava mais só.

Anna fez novos amigos por onde passou e, dessa vez, não jurou que seria pra sempre. Apenas aproveitou o momento e se deixou levar conscientemente em busca da sua realização pessoal. Conheceu Paris, Roma, Espanha, Alemanha, Londres… se fixou por mais tempo em uma pequena cidade na Irlanda e decidiu que ali era bom demais para deixar pra trás. E por lá ficou.

Dizem que ela voltou ao Brasil apenas para regularizar as coisas e foi pra Irlanda definitivamente apenas dois meses depois. Dizem também que seus pais a visitam de seis em seis meses e, vez ou outra, sua amiga vai junto. Dizem que Anna conheceu um rapaz irlandês e que está noiva dele há três semanas. E o mais importante, está feliz como jamais esteve. O seu vizinho, aquele do som irritantemente alto, não notou que ela foi embora e nem se lembraria dela de forma alguma. Ela também não se lembrava de mais nada que lhe atrasava. Estava feliz demais para viver no passado. A súbita coragem de Anna salvou a sua vida.